Em Portugal, quando as empresas — sejam pequenas, médias ou grandes, locais ou multinacionais — querem contratar um trabalhador temporário sem salário, criam um anúncio com o rótulo “estágio curricular”. Muitas vezes, admitem na própria oferta que os destinatários são pessoas que não frequentam qualquer curso, ou seja, que não existe nenhum currículo no qual o estágio se possa inserir. É o caso da Guedelha & Araújo, que anunciou estar à procura de um helpdesk e de um programador, recém-licenciados, e ainda de um comercial com experiência, que queiram ser estagiários não remunerados.
Nos anúncios lê-se que os trabalhadores terão a oportunidade de participar e contribuir para a valorização da empresa, mesmo não tendo salário. Refere-se ainda que a consultora tem «uma preocupação constante com a motivação das equipas», «foco no desenvolvimento» da carreira do estagiário e «honestidade e compromisso com os colaboradores».
O portal do Instituto de Emprego e Formação Profissional publicou esta semana um anúncio destinado a técnicos de secretariado/intérpretes da zona de Paços de Ferreira. Apesar de ter de ser muito eficiente em inglês, francês e espanhol, o trabalhador recrutado só irá receber o salário mínimo.
Seja como for, este poliglota a trabalhar a troco do salário mínimo será mais um pobre para a estatística.
A Embaixada do Canadá em Portugal, localizada na Avenida da Liberdade, em Lisboa, contactou há dias a Faculdade de Direito da Universidade Nova da Lisboa (FDNUL), para anunciar que está a “oferecer” um estágio não remunerado. Pedia que a vaga fosse divulgada através da plataforma de emprego da faculdade, pois podia interessar aos seus licenciados. Em vez de responder que em Portugal, tal como no Canadá, o trabalho sem salário é ilegal, a FDNUL enviou a oferta para os seus actuais e antigos alunos.
O procedimento revela que esta instituição de ensino público trata de forma desigual os seus licenciados, pois coloca de parte aqueles que têm de viver do seu trabalho. Nem todos têm poupanças ou suporte familiar que lhes permita trabalhar gratuitamente durante meses.
Por outro lado, é difícil entender o que leva uma das mais prestigiadas faculdades portuguesas a incitar os seus alunos a serem trabalhadores precários na embaixada de uma das nações mais ricas do mundo. Segundo dados do Fundo Monetário Internacional, o Canadá é o 11.º país com maior Produto Interno Bruto (nominal).
A Sociedade Central de Cervejas pertence ao Grupo Heineken e é a detentora de marcas como a Sagres ou a Luso. Fundada em 1934, tem muitos trabalhadores, lucros elevadas, tal com as despesas, e, sobretudo, muita experiência nos negócios. Apesar disso, neste momento, tem a decorrer um processo de recrutamento de um estagiário sem salário.
Licenciados ou mestres em design, os candidatos irão trabalhar em tempo integral durante meio ano, sempre de borla. Como bónus, o escolhido terá almoço no refeitório e a possibilidade de se deslocar nos transportes da empresa.
Durante os 81 anos de história da Central de Cervejas, alguma vez foi possível a uma empresa ter um trabalhador ao seu serviço, durante seis meses, e não lhe pagar?
Esta jovem empresa, que actua na área do imobiliário, anunciou que «está a oferecer um estágio não remunerado». O “presente” destina-se a pessoas ligadas ao audiovisual que estejam disponíveis para trabalhar, em part-time e de borla, durante um período de três a seis meses.
Entre outros requisitos, os candidatos devem possuir «experiência de trabalho em filmagens outdoor e edição de filme» e é indispensável que levem um computador portátil para o escritório (presumimos que o software de edição também esteja incluído).
No campo «privilégios», a Home Hunting indica que o estagiário poderá «descobrir a cidade de Lisboa, todos os bairros e as suas mais valias», terá a oportunidade de ajudar a empresa a crescer e irá alcançar muitas visualizações nos seus vídeos.
Para já, a empresa opera em Lisboa mas quer expandir-se para outras cidades no mundo.
Através dos Precários Inflexíveis, tivemos conhecimento deste anúncio publicado pela Junta de Freguesia de Odivelas. Ficámos assim a saber que esta instituição pública vai usar o programa ocupacional Emprego-Inserção (do IEFP) para suprir uma necessidade permanente da cidade: a limpeza das ruas.
Os desempregados convocados têm de aceitar a oferta, caso contrário deixam de receber o subsídio de desemprego. Em suma, o Estado obriga estas pessoas a cumprirem deveres de um trabalhador para manterem os direitos de um desempregado.
Estima-se que haja 70 mil portugueses a trabalhar nestas condições, em diversos organismos públicos. O número ultrapassa os cerca de 50 mil funcionários públicos despedidos nos últimos dois anos.
Na passada semana, este site de moda voltou a publicar uma oferta de emprego destinada a uma blogger/gestora de redes sociais e conteúdos digitais, «em regime de voluntariado». Indicam novamente que, «a médio prazo», a trabalhadora escolhida terá a possibilidade de «integração na equipa de administração do projecto». Ou seja, ao trabalhar de borla (até quando não se se sabe) candidata-se a sócia do projecto.
Entre outros requisitos, é pedido «espírito empreendedor e alguma noção de startups», «multi-tasking e carradas de proatividade+produtividade».
O tipo de recrutamento (ilegal) usado pela LxModa repete-se desde 2013, como na altura referimos. O tom usado nos anúncios revela uma realidade preocupante.
Num anúncio publicado há dias, esta consultora começa por indicar que, «pelo segundo ano consecutivo», está na lista Melhores Empresas para Trabalhar da revista Exame. Em seguida, informa que procura um helpdesk que queira trabalhar sem receber.
Apesar de não remunerar o estagiário, a Bold International revela que se irá focar no desenvolvimento da sua carreira e dar-lhe oportunidade de participar e contribuir para «a valorização da marca Bold». E refere ainda que tem «uma preocupação constante com a motivação das equipas» e «honestidade e compromisso para com os colaboradores».
A revista Exame considerou a Bold Internacional a 22.ª melhor empresa para trabalhar em Portugal em 2014.
Ser arquitecto foi em tempos uma profissão de prestígio, associada a elevadas remunerações. Mas, nos últimos anos, os salários não param de baixar e o sector, como a maioria, está precarizado. Como exemplo, apresentamos uma oferta de emprego encontrada no portal estatal do Instituto de Emprego e Formação Profissional.
Quantas pessoas em Portugal estão habilitadas para ocupar este cargo? E tanta especialização só vale 644 de salário (bruto) por mês?
No anúncio não está identificada a empresa recrutadora. Apenas indica que se localiza na freguesia lisboeta Estrela.
O Carga de Trabalhos, fonte rica para as publicações desta plataforma, apresentou mais um anúncio que merece atenção. A primeira frase do texto mostra como, no mercado actual, os conceitos “trabalho” e “remuneração” já não são inseparáveis.