Posts com a tag 'desemprego'.

image

A agência de Palmela desta multinacional – uma das 38 que existem no país) – publicou um anúncio onde procura pessoas com “licenciatura adequada (gestão de recursos humanos, psicologia, gestão ou similares)” e que tenham experiência. O cargo não é remunerado.

Como se pode confiar nos serviços de uma empresa de recursos humanos que oferece empregos sem salário?

Ganhem vergonha!

image

“Cheguei a uma entrevista para o cargo de jornalista na Gestão Global após alguns meses no desemprego. Antes, tinha passado por uma licenciatura, alguma formação profissional, três estágios (um curricular, um profissional e um internacional), empregos a recibos verdes, contratos a termo e até um sem termo. Em sete anos de trabalho, divididos entre sector privado e sector público, colecionei muitos processos de recrutamento. Aquela foi a primeira vez em que, desde o início, senti que me falavam já como contratado e não como candidato.

As instalações pareciam modernas e só vi três pessoas, todas na casa dos trinta. Passados uns dias, confirmaram a minha selecção e convocaram-me para uma data. À pergunta sobre as condições do contrato, responderam que falaríamos depois. 

No dia agendado, só aparecemos três dos quatro seleccionados. Às duas raparigas que me tinham entrevistado – uma jornalista e uma editora (que pareciam no mesmo nível hierárquico) – juntou-se o director da empresa. Falou durante mais de uma hora sobre o funcionamento da revista. Disse que não assinaríamos os artigos mas que o nosso nome constaria na ficha técnica (nada contra, já que o tipo de trabalho não permitia grandes traços autorais). Acrescentou que o cargo seria muito bom para o nosso currículo e que era um privilégio podermos escrever para a revista com maior tiragem a nível nacional: 400 mil exemplares. “Uma vez que vocês são um encarte do JN tanto vale que sejam uma revista sobre empresas ou um folheto do professor Karamba”, pensei, mas tentei afastar a desconfiança.

O líder da Gestão Global continuoua esmiuçar o cargo e as estratégias para o desempenharmos com sucesso, explicando que quantos mais clientes angariássemos, mais ganharíamos. Intercalava o discurso com considerações sobre o estado da crise nacional. Falava-nos já como nosso patrão e parecia sentir-se um professor a ensinar uns truques aos seus discípulos. Aparentava nem sequer considerar a hipótese de nós podermos rejeitar a oferta. Terminada a propaganda disse que ia ao café e que devíamos tirar as dúvidas com as raparigas.

A jornalista insinuou que ganhava muito dinheiro e que não seria difícil obter bons resultados. Informou-nos de que teríamos o salário mínimo como base, mais subsídio de alimentação, e de que ganharíamos comissões. Se conseguíssemos angariar até 3 mil euros, não haveria comissões. Entre três e cinco mil euros, teríamos direito a cinco por cento do valor alcançado. Havia depois patamares de comissões superiores, de oito, dez e quinze por cento. No primeiro mês, que seria à experiência, os três mil seriam o nosso objectivo mínimo. No final, decidiriam quem seria contratado: podíamos ser todos, apenas um, ou nenhum.

Perguntaram se todos tínhamos carro para as visitas aos clientes e todos respondemos que sim. As despesas seriam pagas. Achei que se um cliente me visse chegar à sua empresa no meu carro velho, chamaria um segurança, mas nada disse. Depois, quiseram saber se tínhamos computador: novo sim geral, mas desta vez já respondi contrariado. A questão seguinte foi sobre máquina fotográfica e desta vez já disse não ter. Fui o único. “Temos de arranjar uma câmara para o Francisco", apontou a editora.

Em seguida, simulámos telefonemas para os clientes e, aparentemente, todos tínhamos jeito. Estávamos numa Quinta-Feira e começaram a dar-nos as indicações de trabalho para Segunda. Outra jornalista juntou-se a nós e pareceu-me ter um ar infeliz. Entretanto, a editora, muito alegre, disparou: “Estamos aqui a falar e ainda nem sequer vimos se vocês sabem escrever”. Enquanto eu pensava que aquela era das coisas mais sérias que tinham dito durante a tarde, ela fechou o tema: “Bem, a julgar pelos vossos currículos, de certeza que sim”. Terminou perguntando se tínhamos alguma dúvida.

Os meus colegas não tinham. Talvez fosse apenas o medo de perguntar, típico nos desempregados. Levantei o braço e disse que tinha uma, das pequenas: como seria o contrato no primeiro mês, se é que existia. A jornalista, menos segura do que até aí, disse que não havia contrato e que seria uma prestação de serviços. Um completo falso recibo verde, portanto. Não sei ao certo quanto restaria aos 485 euros (mais subsídio de alimentação) depois de subtrair os descontos “verdes”, mas talvez chegasse, à justa, para a minha comida, renda e gasolina.

Começaram a despedir-se, sem pedirem que confirmássemos o nosso interesse no posto. Expliquei-lhes, então, que tinham uma entrevista em Lisboa no dia seguinte (era verdade) e que só no fim-de-semana lhes daria a minha resposta. Pareceram surpreendidas. A editora ligou ao director, comunicando-lhe que já íamos sair e esperamos que ele regressasse para também se despedir. Mal entrou na sala, e de forma fanfarrona, questionou: “quem é que aqui vai amanhã para Lisboa?”. Aproximei-me e ele continuou: “Olhe que lá em baixo não vai arranjar melhor do que isto”, ironizou. Com um sorriso amarelo escondi o que me ia na cabeça: “Levar com um pau nas costas é melhor do que isto”.

Quando saí, parecia-me legítimo pensar que podiam fazer aquilo todos os meses sem contratar ninguém no final. Seria uma forma de garantir, com mão-de-obra baratíssima, a publicação mensal da “revista com maior tiragem em Portugal”. Mais tarde vim a saber, entre outras coisas, que nenhum daqueles colegas recrutados aguentou muito tempo e que não receberam o que lhes fora prometido.”

Francisco

PEDIDO AOS LEITORES

Analisamos e verificamos todas as denúncias de ofertas de emprego enviadas pelos leitores. As que achamos merecedoras de exposição pública são exibidas no blogue e no nosso perfil no Facebook. No entanto, relembramos que não somos profissionais nem temos meios para investigar acusações sem provas. Respeitamos todas as empresas até prova em contrário. Por isso, pedimos a todos que apresentam informação que comprove a denúncia enviada ou que assinem os testemunhos.

Temos recebido inúmeras denúncias e pedidos de esclarecimento relativos a diferentes situações vergonhosas: casos de faltas de pagamento, contratos prometidos mas nunca assinados, situações de falsos recibos verdes, problemas com licenças de maternidade, pessoas com formação superior que são contratadas para uma função especializada e acabam a limpar as casas de banho da empresa, etc. É assustador, mas no Ganhem Vergonha não temos meios para investigar e, em muitos casos, nem temos conhecimentos suficientes sobre a lei laboral para podermos ajudar. Assim, aconselhamos todos a exporem os casos à Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT).

OBJECTIVOS

O nosso objectivo principal é expor a realidade vergonhosa dos anúncios de oferta de emprego e, assim, contribuir para uma discussão pública sobre o tema e para a criação de legislação efectiva. Da mesma forma que não se pode cometer uma ilegalidade, também não deveria ser possível anunciar que se vai infringir a lei. No mínimo, parece-nos imoral. Cada caso que expomos é acompanhado por uma ligação ao respectivo anúncio.

Achamos que todos os anúncios deveriam ser obrigados a conter a seguinte informação:

1 - O nome do empregador;

2 - O tipo de contrato e a sua duração;

3 - O salário associado ao cargo;

4 - O horário a cumprir. 

Desta forma, poupar-se-ia tempo aos candidatos e às empresas, e talvez a selecção e a contratação fossem mais eficazes. E afastar-se-ia quem se aproveita da crise para não pagar o que a lei obriga e quem cria anúncios falsos com fins promíscuos.

QUEM SOMOS

Somos uma plataforma amadora e sem fins lucrativos de denúncia de empregadores sem vergonha. Publicamos ofertas de trabalho que consideramos imorais e que, na maioria dos casos, são ilegais. Partilhamos também testemunhos de pessoas que foram tratadas de forma vergonhosa enquanto trabalhadores ou candidatos a um emprego.

Acreditamos que o continuo recurso a estagiários não remunerados reduz drasticamente o valor do trabalho dos jovens e leva à diminuição de qualidade nas empresas. Beneficia-se quem trabalha mais barato e não quem é melhor. É injusto para as empresas cumpridoras que não podem concorrer em igualdade com as prevaricadoras. É injusto para os jovens que ficam eternamente precários. E é injusto para as suas famílias que não param de os sustentar.

CONTEXTO

Segundo dados revelados pelo Eurostat no dia 1 de Março de 2013,  Portugal apresenta uma taxa de 17,6 por cento de desemprego. Em relação à população jovem, estima-se que os valores rondem os 40 por cento. Fora destes números estão os estudantes, as pessoas não inscritas nos centros de emprego e, obviamente, os trabalhadores precários.

Perante as trágicas circunstâncias, muitos empregadores aproveitam-se e “oferecem” postos de trabalho com condições verdadeiramente insultuosas para quem procura emprego. É certo que alguns desses empregadores estarão também a atravessar graves dificuldades económicas, mas nenhuma crise desculpa a falta de vergonha na cara. 

Além disso, abundam os anúncios falsos, criados apenas para a obtenção de contactos que enchem bases de dados, para se fazerem estudos de mercado ou para o sustento de sites de oferta/procura de emprego.

Por isso, e, perante a escassa (ou inexistente) fiscalização das ofertas de trabalho colocadas na Internet – o que também é provocado pela falta de meios das autoridades competentes – este blogue surge como plataforma de denúncia. Aqui serão publicados anúncios de emprego desavergonhados. 

Para concluir, consideramos que uma empresa que assume que não tem dinheiro para pagar salários dignos deve fechar. E que quantos mais forem os jovens a aceitar condições de trabalho sem vergonha, mais precários serão os empregos em oferta e mais baixos serão os padrões de qualidade do mercado.