No início de Outubro, surgiu no OLX um anúncio desta nova revista. Vamos agora transcrever, sem edição, o principal da oferta:
«Várias oportunidades para revista online — Não remunerado (m/f)
Se queres melhorar o teu currículo, gostas de fotografia, vídeo ou de escrever, és original e ativo, queres ocupar os teus tempos livres com algo que gostas e que pode vir a ajudar a tua carreira profissional? Estás no sítio certo! Junta-te a nós, através da participação de uma inovadora revista online, pela qual vais aprender e estagiar em várias áreas da Media. Envia-nos o teu CV. Nota: Possibilidade de um futuro emprego com esta organização.»
Apesar de ser uma nova revista, a Lisbon vibe não divulgou a oferta nos principais sites de emprego. Talvez tenha sido uma falha na comunicação. Ou talvez seja apenas vergonha do conteúdo.
Certo é que os responsáveis da revista, além de desconhecerem regras básicas da gramática portuguesa, também não conhecem as leis laborais.
Hoje, fala-se muito na decadência do jornalismo. Põe-se em causa a falta de independência de muitas redacções face às estruturas económicas que as sustentam. O sensacionalismo vende cada vez mais e a pressa da notícia, provocada pelo digital, diminui o rigor. Isso e a crescente precarização do sector. Quase todos os órgãos de comunicação social têm um exército de estagiários, em permanente rotação.
Sejam curriculares (de borla), profissionais (pagos maioritariamente pela Segurança Social) ou com salários muito baixos, alguns destes jovens sabem pouco, mas outros fazem trabalho de gente grande. Claro que trabalhadores sem as condições mínimas nunca poderão ser independentes, nem manter a qualidade nos seus conteúdos. E perante tanta gente desesperada por uma oportunidade, não falta quem se aproveite. Tudo com a conivência de jornalistas seniores e de universidades.
Em Setembro passado, o Gabinete de Inserção Profissional e de Antigos Alunos da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, informou os seus contactos que existiam «oito vagas para estágio curricular (componente não-lectiva do Mestrado), no Expresso Digital». Tratam-se de estágios de seis meses para licenciados, sem salário. Parece que o jornal tem falta de gente para todo o trabalho existente. Ou se calhar transformou-se numa escola. Este calendário seguia com o e-mail:
O mesmo gabinete da Universidade Nova enviou um e-mail com o assunto Divulga-se 2 vagas Estágio Profissional Jornalista e um documento anexado, chamado Estágios_Cofina. Apesar do nome, a pessoa a contactar revelou a um candidato «tratar-se de um projecto novo, que não tem nada a ver com a Cofina». A oferta também não tem nada que ver com um estágio profissional, pois segue regras inventadas, que não estão na lei.
Segundo o anúncio, procuram-se jornalistas com disponibilidade para viagens frequentes ao estrangeiro, de um ou dois dias. Entre outros requisitos, os candidatos devem ser fluentes em inglês e, de preferência, também em espanhol e francês. O responsável pela oferta informou ainda que o cargo «exigirá um empenho e uma carga horária fora do habitual, pelo menos nos primeiros três meses».
O trabalho será exercido em regime de prestação de serviços (neste, caso, falsos recibos verdes). Nos primeiros dois meses, a remuneração será de 125 euros líquidos e nos seis seguintes sobe para 350. Valores muito abaixo do mínimo definido por lei (485 euros brutos). «Durante os dois primeiros meses paga de facto mal, mas as perspectivas existem», concluiu o recrutador.
É hora de as universidades pararem de pagar favores e protegerem aqueles que formam. E seria bom que os jornalistas influentes, que têm posições estáveis, começassem a defender os precários do sua classe e todos os que aspiram a integrá-la. Um jornalismo que assobia para o lado, na própria casa, não é precário apenas em honorários. Está aí algum?