Os profissionais das chamadas “indústrias criativas” – ligadas ao cinema, multimédia, audiovisual, design, arquitectura, pintura, escultura, música, teatro, escrita, ilustração, etc. – são, muitas vezes, tratados como indivíduos com menos direitos. O que produzem é visto como resultado de um dom ou de uma inspiração espontânea, e não como consequência de um trabalho que deve ser equiparado ao dos médicos, ao dos carpinteiros ou ao dos condutores de autocarros (ofícios que também requerem criatividade). Mas ser “criativo”, profissionalmente, costuma implicar horas de dedicação, conhecimentos técnicos e anos de estudo.
Há muito trabalho não remunerado nestas áreas, o que as tornas acessíveis apenas a classes privilegiadas (quem não tem sustento não se pode sujeitar a trabalhar de borla). E, se só pessoas de um estrato social ocupam posições ligadas à cultura e à arte, o país distorce e empobrece a sua identidade.
Encontra-se, também, muito trabalho especulativo. Para concorrer a ofertas de emprego, é usual estes trabalhadores serem obrigados a prestar provas complexas gratuitamente. O recrutador lança um “desafio criativo” e os candidatos (às dezenas ou às centenas) apresentam propostas. No final, a empresa fica com muito por onde escolher e paga apenas a quem quer. Não é uma forma rentável de aumentar a qualidade? Como exemplo, mostramos uma oferta divulgada pela Your Story.
Apresentaram-se como uma empresa criadora de histórias infantis, que procura pessoas com «gosto e habilidade para a escrita criativa». Enviou aos candidatos um repto, mesmo sem os entrevistar ou lhes explicar quais as condições do cargo (os honorários, por exemplo): num prazo de 48 horas, deveriam escrever um “ensaio” de «exactamente seis páginas», que respondesse a indicações fornecidas por um cliente.
Imaginam vários médicos a darem consultas, durante dois dias, para competir por um cargo? Ou 10 carpinteiros a construírem móveis para, no final, só um ou dois serem pagos? Acham que dezenas de motoristas de autocarro fariam dois turnos sem remuneração? O direito de um trabalhador receber pelo seu trabalho não pode depender do tipo de enxada que usa.
