
Partilhamos, agora, um terceiro testemunho sobre esta agenda cultural online:
“Cheguei à Ritmurbano no fim de Janeiro, através de um anúncio do site Carga de Trabalhos. Já tinha terminado o curso de jornalismo há uns meses e, como estava a ficar desesperada, estava disposta a fazer o que fosse para ter uma oportunidade de trabalho. Fui a uma entrevista, realizada num café na LX Factory (Lisboa), onde fiquei quase automaticamente ‘contratada’ para fazer um estágio de três meses como fotógrafa e redactora. Foi-me prometido um telemóvel passados dez dias e o pagamento de ajudas de custo – passe de metro e carris (35 euros), refeições e outras despesas ligadas aos trabalhos.
Os três meses acabaram por se prolongar para uma situação caótica de cinco meses, em que as perspectivas de futuro e as minhas funções mudavam constantemente. Éramos pelo menos seis a trabalhar sem receber nada, mas houve outros, antes e depois. Das seis, fui a que aguentou mais tempo. Cometi alguns erros, como é normal a quem está a aprender, mas tentei sempre dar o meu melhor. Cheguei a limpar o chão do escritório.
Nos primeiros três meses tínhamos reuniões na LX Factory ao fim da tarde, em média duas vezes por semana. Apareciam sempre pessoas novas e desapareciam outras. Os temas discutidos eram variados, as tarefas eram distribuídas e recebíamos lições de empreendedorismo e de marketing, nas quais o patrão da empresa usava o livro 'Arte da Guerra’ como modelo. Dizia que todos devíamos ler aquele livro se queríamos ser alguém na vida.
Depois, começámos a reunir em cafés com acesso à internet. Percebi, mais tarde, que não existia qualquer ligação da Ritmurbano ao LX Factory e que não podíamos usar o espaço de cowork porque era necessário um contrato e um pagamento de uma renda, o que não existia. Só no fim do Maio é que apareceu o actual escritório no Cais do Sodré.
Entre Janeiro e Maio realizei dois trabalhos fotográficos e três entrevistas em vídeo. Nenhum dos vídeos ficou editado enquanto eu estava lá, porque não havia dinheiro para pagar ao editor, que se recusava a entregar o trabalho.
No último mês, três a quatro vezes por semana, o responsável da Ritmurbano chamava-me para me reunir com ele. No caminho pela Baixa, à procura de cafés com internet, costumava 'ensinar-me a andar’: tinha que ir atrás dele em fila indiana porque assim é que estava bem; devemos seguir os nossos superiores e pensar da mesma forma que eles. Era muito autoritário e, uma vez, como não fui submissa, começou a gritar comigo em plena rua. Ofendeu todas as pessoas que trabalhavam para ele à minha frente, apelidando-os de 'crianças’ ou 'burros’, entre outras coisas.
Dos 35 euros para o passe mensal, nunca me chegava a dar a totalidade. Carregou-me o telemóvel duas vezes com cinco euros e deu-me dinheiro para o táxi e alimentação nas duas entrevistas que tive que realizar à noite (concertos). Após uma discussão, decidiu que, a partir dali, só me pagava metade do passe, porque eu não merecia mais.
No fim, quando já não aguentava mais e me sentia humilhada e mal tratada, disse-lhe que me ia embora. Pedi-lhe um comprovativo de estágio e ele recusou-se, dizendo que o tinha feito perder tempo e dinheiro (que dinheiro?). Disse que consumi recursos disponíveis e tirei o lugar a outra pessoa. Mais tarde, enviou um e-mail a pedir-me o modelo de comprovativo e avisou-me de que a avaliação seria negativa. Nunca me enviou o documento preenchido.
Durante o 'estágio’, percebi que o patrão da RItmurbano é um pseudo-empreendedor que manipula e usa as pessoas, fazendo promessas que nunca se concretizam. E nós deixamo-nos enganar porque queremos ganhar experiência e fazer coisas. Pagamos para trabalhar e ainda somos mal tratados.”
Bárbara