Posts com a tag 'trabalhar de borla'.

Jornal Record desafia leitores a trabalhar de borla para videojogo

No passado dia 5 de junho, o jornal Record divulgou, na sua secção online Record Gaming, um artigo com o título «Sempre quis trabalhar para o Football Manager? Aqui tem a sua chance!». O texto dava conta de que a  equipa de pesquisa portuguesa do popular videojogo estava «em busca de novas colaborações». O que o diário desportivo não indicava era que o trabalho em oferta, por motivo desconhecido, não tinha remuneração.

image

Sucessor do Championship Manager, o Football Manager (FM) é um jogo que simula a gestão de clubes de futebol. Desenvolvido pela Sports Interactive, empresa de referência no sector, é comercializado pela Sega, outra gigante do mercado. Como se indica na peça, é «um dos videojogos mais vendidos do Mundo» e lança, desde 1992, uma nova versão todos os anos. Para a de 2018, ainda não haverá dados, mas as cinco anteriores (entre 2013 e 2017) venderam mais de um milhão de cópias cada uma, segundo os próprios criadores. Em Portugal, o preço de lançamento supera os 60 euros.

Por ser um simulador dos campeonatos de futebol dos cinco continentes, o FM necessita de uma quantidade astronómica de dados reais e para os recolher necessita de trabalhadores espalhados pelo mundo, de modo permanente. O anúncio publicado no Record dirige-se a potenciais recolectores de informação no nosso país.

Para uma candidatura ao posto de «researcher» «é fundamental disponibilidade» de 15 de Maio a 20 de Setembro e de 15 de Dezembro até 2 de Fevereiro. «São as alturas de picos de trabalho», diz o anunciante, que refere ainda que se os candidatos «tiverem de estar offline por um período consecutivo superior a uma semana, é melhor que a candidatura seja feita apenas noutra altura». 

Durante o período referido, «é necessário entregar trabalho ATEMPADAMENTE», assim, escrito em maiúsculas, pois «não há margens para atrasos». Mais: «este trabalho tem exigências e deve ser encarado de forma bastante responsável e consciente», «com grande profissionalismo», pode ler-se no formulário.

Mas depois da descrição das tarefas a desempenhar — «de inicio é trabalho para uma bela dezena de horas», «mas depois torna-se uma tarefa leve» — surge a referência aos honorários: «o "trabalho" NÃO é remunerado». A negativa é assinalada em maiúsculas, talvez para evitar dúvidas, e as aspas, não usadas nas quatro anteriores referências ao trabalho, parecem ser usadas para aligeirar o cargo e legitimar a exploração. Como se a pontuação fosse suficiente para isentar a obrigação de pagar a quem para nós trabalha.

O recrutador assume assim que no futuro vai usufruir de trabalho «de borla» e a apropriação começa logo no recrutamento, ao exigir aos candidatos o envio de um relatório com informação específica sobre equipas de futebol nacionais. 

O anúncio foi publicado pela equipa portuguesa de pesquisa do FM. E o trabalho sem vencimento que oferecem é «excelente para CV!», dizem.

Estoril Open admite que não remunera todos os que produzem o torneio

No final do Estoril Open 2018,  João Zilhão, director do torneio, agradeceu no court aos «mais de 600 colaboradores» que durante meses — incluindo «dias com 20 horas de trabalho» — produziram o evento. No discurso, referiu-se aos «voluntários», que ali estavam «a trabalhar de borla», como parte daqueles que «fazem o torneio».

Olhemos para alguns dados do Estoril Open, competição que renovou o seu formato em 2015. «Trata-se de um evento consolidado e sustentável que tem melhorado de ano para ano, graças ao apoio incondicional do Millennium BCP e da Câmara Municipal de Cascais e a crescente adesão de parceiros de prestígio é a melhor prova desse sucesso», anunciava Zilhão na apresentação oficial da edição deste ano. São dezenas as marcas que patrocinam a prova, muitas delas com contratos prolongados: Peugeot, Emirates, Rolex, Nespresso, PT Empresas, CTT,  entre outras. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e o Turismo de Portugal também integram a longa lista de entidades apoiantes.

Não é público se em 2018 o Estoril Open já deu lucro, algo que não sucedeu até ao ano passado. Mas, na altura, o seu director dizia ao Jornal de Negócios que estava «muito perto disso». O que se sabe é que o valor total dos prémios distribuídos pelos jogadores subiu desta vez para os 500 mil euros.

Outra das relações oficiais do torneio é a estabelecida, há já alguns anos, com a Voluntify, parceira que, no seu site oficial, se apresenta como uma «organização sem fins lucrativos especializada» que faz a «gestão de voluntários qualificados para a realização de eventos sociais, culturais e desportivos». Diz pretender «mostrar que cada evento é realizado com muito esforço e dedicação em troca de coragem, interesse e responsabilidade». E anuncia que, «acima de tudo», quer que os voluntários «se sintam úteis, que se sintam envolvidos e enriquecidos por todas estas novas experiências e sobretudo que tenham um papel activo na consciencialização da sociedade para alguns dos temas que mais impacto têm na actualidade». Esses temas não são especificados, tal como as «boas causas» em prol das quais a organização diz actuar.

Coube à Voluntify tratar da tarefa de procurar, seleccionar e dirigir os voluntários para «trabalhar de borla» no Estoril Open.

image

Assim era começava o apelo, feito nos canais digitais da Voluntify: «O Millennium Estoril Open é um evento incontornável no panorama desportivo e social do nosso País e foi, na sua primeira edição, em 2015, um grande sucesso a todos os níveis. Parte desse sucesso foi devido a ti! A presença dos voluntários é cada vez mais importante, pois somos nós, com o nosso espírito de equipa e profissionalismo, sem esquecer o sorriso nos lábios, que tornamos este evento inesquecível!».

No formulário de candidatura, era indicado que os voluntários iriam marcar «presença no recinto durante horário integral e total do evento», em «turnos de seis horas geridos dentro desse horário directamente com os coordenadores». «Por motivos logísticos», era pedida «disponibilidade para participar em todos os dias do evento» e numa «formação obrigatória» no feriado de 25 de Abril. Eis a transcrição das funções a executar:

  • Apoio na acreditação dos participantes;
  • Gestão de público: informação e encaminhamento dos participantes;
  • Encaminhamento do público para os seus lugares nos jogos;
  • Apoio aos jogadores na zona dos balneários;
  • Apoio à coordenação das zonas de animação do evento;
  • Apoio na acreditação na zona da restauração; 
  • Apoio de secretariado aos jornalistas, na zona de imprensa
  • Apoii em todas as questões logísticas e de execução, dentro da equipa de organização do Estoril Open;
  • Apoio em todas as questões logísticas (check-ins e outs) e de execução (preparação e distribuição de lanches, apoio à Team Voluntify) ligadas ao voluntariado;
  • Cobertura de fotografia e vídeo (captação e edição) do voluntariado no evento (com material próprio).

Além de responder a uma série de perguntas sobre dados pessoais e experiência, os candidatos tinham ainda de enviar uma foto de rosto «de tamanho razoável, sozinho, sem óculos escuros e com o rosto bem visível» (não fosse o aspecto físico do voluntário não se enquadrar com a imagem do evento).

Depois da análise de candidaturas e entrevistas, a Voluntify escolheu os voluntários que iriam trabalhar de borla no Estoril Open. Todos deviam «respeitar as indicações dos responsáveis, cumprir as suas funções e divertir-se!». Mas nenhum foi pago pelo seu trabalho. Receberam, sim 180 pontos no Cartão Voluntify, que podem ser trocados «por cenas fixes».

image

Como se percebe pelas declarações de João Zilhão e se depreende do tipo de de funções acima descritas, os voluntários do Estoril Open trabalharam, de facto. E todos os envolvidos no processo – a organização do torneio (ao decidir preencher postos de trabalho com voluntários), a Voluntify (ao criar e oferecer um serviço sustentado em trabalho «de borla») e até os candidatos (ao aceitar as condições e assim contribuírem para a desvalorização do trabalho) – partiram de uma mesma premissa: enquanto jovem, o trabalhador perde o direito à remuneração.

«Quem achar assustador um estágio de três meses não remunerado não vive neste mundo»

A 18 de Janeiro, a empresa Ready to Shoot divulgou na sua página no Facebook uma proposta de trabalho. Entre um longa lista de requisitos, exigiam ao trabalhador (apelidado de «estagiário») «disponibilidade total e imediata para trabalhar fora do horário habitual das 9h às 17h, incluindo fins-de-semanas e feriados». O vínculo laboral teria a duração de um trimestre, sem salário.

No texto, a empresa assumia que o período serviria para testarem o trabalhador, ao prometerem a «possibilidade de contrato de trabalho no final».

Desconhecemos o motivo de excepção que permite à Ready to Shoot isentar-se de apresentar logo à partida o referido contrato, o que, desde logo, lhe permitiria avaliar o trabalhador num período experimental (presente em quase todos os contratos, com extensão variável).

Perguntámos na página da empresa porque não seria o trabalhador remunerado, mas não obtivemos resposta.

No dia seguinte, a Ready to Shoot apagou o anúncio e fez a seguinte publicação: «Obrigado aos 7000 perfis que responderam, leram, gostaram, partilharam, ameaçaram, se indignaram, criticaram e ofenderam o nosso anúncio de aprendiz de produção. Ainda estamos para ver se foi uma péssima ideia com um óptimo resultado ou uma óptima ideia com um resultado desastroso. Mas garanto, quem achar um estágio de 3 meses não remunerado assustador não vive neste mundo. To be continued».

Muitos leitores, descontentes com o referido mundo, questionaram a empresa e gerou-se uma discussão sobre o tema na sua página. Mas ao final dia, depois de muitas críticas, esta segunda publicação também foi eliminada

A empresa Original World admitiu online que vai usar estágios curriculares para testar dois trabalhadores e oferecer aos candidatos trabalho não remunerado que, «eventualmente», pode levar a mais trabalho não remunerado.

Infelizmente, nada de muito original no mundo das ofertas de emprego.

image
image

O Talkfest é um fórum sobre festivais de música portugueses. A sua 4.ª edição começou hoje, em Lisboa. Há uma semana, os seus responsáveis publicaram um anúncio no Net-Empregos a pedir um fotógrafo (com conhecimentos de vídeo) para cobrir o evento ao longo dos três dias, entre as 9 da manhã e a meia-noite.

Quanto à remuneração, a oferta indicava o seguinte: «pagamento pela qualidade transmitida/refeições ao longo do evento». A informação era dúbia e parecia dizer que o pagamento dependia do desempenho do trabalhador. Até que as dúvidas foram esclarecidas pelos recrutadores. Comunicaram a um candidato que gostariam de o ter como fotógrafo/videógrafo do Talkfest. Mas disseram que, por serem uma “associação sem fins lucrativos”, nesta fase apenas conseguiam pagar-lhe a alimentação no restaurante do evento. Referiram ainda que preferem recém-licenciados ou universitários que possam, assim, ganhar portefólio. Não será antes porque acham que eles aceitam trabalhar de borla?

A oferta foi publicada em nome da Legisser, uma empresa de gestão de imóveis e condomínios de Almada cuja morada é a mesma da APORFEST. Esta associação portuguesa de festivais de música está ligada ao Talkfest e apresenta uma série de serviços (serão gratuitos?).

No festival tudo se paga, seja assistir a conferências, concertos ou documentários. O passe geral custa 100 euros. E até se vendem t-shirts, livros e pendisks com conteúdos. Para o fotógrafo, não sobra nada.

image

O Atlético Clube de Portugal é um histórico clube desportivo lisboeta, com mais de 70 anos. Além do futebol (está na 2.º Liga) tem equipas de basquetebol, futsal, natação e triatlo. Lançou esta semana um anúncio destinado a licenciados ou estudantes finalistas das áreas de design, multimédia e comunicação. A pessoa recrutada irá trabalhar de borla durante um período entre três meses e um ano. E o Atlético chama a este vínculo de trabalho, erradamente, “estágio”.  

Será que atletas, treinadores, médicos, administrativos, zeladores dos equipamentos desportivos ou qualquer outros funcionários do clube também trabalham de borla? E qual é o motivo que leva um empregador a pensar que o trabalho de um designer não deve ser pago?

image

A Embaixada do Canadá em Portugal, localizada na Avenida da Liberdade, em Lisboa, contactou há dias a Faculdade de Direito da Universidade Nova da Lisboa (FDNUL), para anunciar que está a “oferecer” um estágio não remunerado. Pedia que a vaga fosse divulgada através da plataforma de emprego da faculdade, pois podia interessar aos seus licenciados. Em vez de responder que em Portugal, tal como no Canadá, o trabalho sem salário é ilegal, a FDNUL enviou a oferta para os seus actuais e antigos alunos.

O procedimento revela que esta instituição de ensino público trata de forma desigual os seus licenciados, pois coloca de parte aqueles que têm de viver do seu trabalho. Nem todos têm poupanças ou suporte familiar que lhes permita trabalhar gratuitamente durante meses.

Por outro lado, é difícil entender o que leva uma das mais prestigiadas faculdades portuguesas a incitar os seus alunos a serem trabalhadores precários na embaixada de uma das nações mais ricas do mundo. Segundo dados do Fundo Monetário Internacional, o Canadá é o 11.º país com maior Produto Interno Bruto (nominal). 

O Carga de Trabalhos, fonte rica para as publicações desta plataforma, apresentou mais um anúncio que merece atenção. A primeira frase do texto mostra como, no mercado actual, os conceitos “trabalho” e “remuneração” já não são inseparáveis.

image

Será que esta nova empresa vai chegar longe?

image

«A Veigas Imobiliária é a NR 1 Portuguesa a actuar no ramo imobiliário e está no Top 5 das melhores redes a funcionar em Portugal». Assim se apresenta esta empresa nos seus anúncios de emprego, entre os quais se encontram muitos pedidos de trabalhadores sem salário.

Aqui ficam ligações para alguns anúncios de “estágios” não remunerados referentes aos seus escritórios de Vila Franca de Xira:

Cada um destes casos foi replicado em vários sites ao mesmo tempo. A quantidade de publicações indicia que um posto de trabalho na Veigas Imobiliária está sucessivamente a ser ocupado por jovens sem direito a salário. E a insistência neste comportamento ilegal dá a entender que a empresa não deve temer qualquer sanção.

image

Esta agência de publicidade publicou um anúncio no site Carga de Trabalhos em que informa estar à procura de um director de arte/designer. O trabalhador escolhido será integrado num «estágio de adaptação e avaliação» não remunerado. Depois da avaliação, a empresa decide se o integra ou não.

A duração do período em que o profissional irá trabalhar gratuitamente não é especificada. A um candidato que levantou a questão, a BBZ respondeu que este falso estágio «poderá ter a duração completa que emana da lei nestes casos». E aí é que está o problema. Segundo as leis portuguesas (e, já agora, a Declaração Universal dos Direitos do Homem), quem quer trabalho tem de o pagar.