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Em Portugal, é habitual o recurso a trabalhadores voluntários em eventos culturais, sejam festivais de cinema, música, literatura ou teatro, ações de promoção histórica ou patrimonial, exposições ou conferências. No passado, demos os exemplos dos Rock in Rio, da Experimenta Design ou da final da Liga dos Campeões em Lisboa. Agora, falamos do Festival de Cinema da Madeira. 

Este ano, a organização do evento anunciou que precisa de voluntários para cumprir vários horários em diversas áreas: redes sociais e marketing, apoio técnico e transporte, apoio ao programa educativo, atendimento e informação, recepção  no aeroporto, apoio aos workshops, palestras e exibições de filmes, registo fotográfico e secretariado (descrição completa das tarefas). Portanto, a organização procura um batalhão de trabalhadores a quem, em vez de uma remuneração, oferece «acesso gratuito aos filmes e aos workshops» e «uma oportunidade única» para conviver e «criar uma rede de networking». 

Apesar de praticamente não contar para o Orçamento de Estado e de ter pouca relevância na educação nacional, a Cultura é um sector económico como os outros. Os seus trabalhadores não têm descontos na alimentação, na habitação, na saúde ou na educação. Pagam os mesmos impostos e têm os mesmos direitos laborais. Será que a opinião pública aceitaria se uma empresa de cortiça recrutasse voluntários para trabalhos administrativos ou de logística? Ou se um serviço de transportes públicos tivesse nas bilheteiras jovens a trabalhar de borla para “fazer currículo” e a “abrir novos horizontes”?  

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Nos jornais, na Internet e nas televisões, especialistas em recursos humanos não param de repetir que as experiências de voluntariado são agora muito valorizadas nas entrevistas de emprego. As vantagens são infindáveis. Atreladas a esta tendência, muitas entidades procuram voluntários para desempenhar tarefas que, à partida, não deveriam excluir remuneração. Já falámos aqui de alguns casos, como o festival Rock in Rio, a Experimenta Design ou a Turrisespaços, empresa municipal de Torres Vedras, e olhamos agora para a final da Liga dos Campeões, que este ano se realiza em Lisboa.

A UEFA escolheu o Estádio da Luz após uma candidatura da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e o evento terá o apoio da Câmara Municipal e de muitos patrocinadores privados. Segundo o director-geral da FPF, Tiago Craveiro, espera-se uma média de 400 a 500 euros de consumo, por visitante, e estima-se que 110 milhões de pessoas vão ver o jogo pela televisão. Os bilhetes para a partida custam entre 70 e 390 euros, com excepção de 3400 bilhetes VIP, com preços entre 1950 e 4440 euros. É o culminar de uma época de competições europeias, que envolveu muito dinheiro (em 2012/2013, as receitas comerciais da UEFA Champions League e SuperTaça Europeia atingiram os 1,34 mil milhões de euros, dos quais apenas 530 milhões foram distribuídos pelos clubes).

A organização do evento, comandada por UEFA e FPF, envolve seis mil pessoas, desde profissionais das duas entidades, staff recrutado, policias, stewards, profissionais de saúde e animadores. Todos serão remunerados, excepto os 400 bailarinos que vão participar nas cerimónias de abertura e de encerramento. O pedido de voluntários foi promovido pelo Instituto Português do Desporto e Juventude e foi divulgado em muitos meios.

A produção das cerimónias estará a cargo da empresa canadiana Circo de Bakuza e as coreografias serão dirigidas por Wanda Rokicki, responsável por acções semelhantes em eventos como os Jogos Olímpicos de Atenas ou o Mundial da África do Sul. Supomos que quer os canadianos quer a autora inglesa serão remunerados pelo seu trabalho, ao contrário dos figurantes, que terão ensaios durante um mês e nem a um bilhete para o jogo terão direito.

Num país em que as artes e a cultura têm sido tão prejudicadas pela austeridade, e onde existem imensos organismos ligados à dança (sejam profissionais, amadores ou educativos), fará sentido recrutar bailarinos voluntários para um evento milionário? O orçamento da organização seria muito afectado se lhes pagassem?

A música pode mudar, mas nós não dançamos. Já ouvimos vários argumentos sobre as vantagens deste tipo de voluntariado mas há uma pergunta que nunca vimos respondida satisfatoriamente: se a actividade fosse paga, quais dessas vantagens se perderiam?

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No seu site oficial, o Rock in Rio apresenta-se como «o maior festival do mundo» e nas cinco edições realizadas em Lisboa, passaram pelo seu recinto 1,7 milhões de pessoas. Em 2014, a empresa espera atrair mais de 300 mil pessoas, apesar da crise no país e dos bilhetes diários custarem 61 euros. Os responsáveis da marca dizem ter gerado mais de 300 milhões de euros para a economia local, mais de 45 mil postos de trabalho e mais de 2,8 milhões de euros em donativos para causas sociais (entre outras coisas, dizem ter instalado 700 painéis fotovoltaicos em escolas e plantado 118 mil árvores). É realmente muita benfeitoria, ou a sua estratégia de marketing não assentasse no lema «Por um Mundo Melhor». Entre tantos números sobre o Rock in Rio Lisboa, só não encontrámos os que revelam os lucros.

Esta semana, a empresa abriu o seu habitual concurso de selecção de voluntários. São 400 as vagas destinadas a jovens, a partir dos 16 anos, que irão trabalhar no evento, sem remuneração. A organização espera milhares de candidaturas (em 2013, foram 8 mil). Mas se cada uma destas pessoas trabalhasse 40 horas no total dos cinco dias do festival, a receber cinco euros por hora, o Rock in Rio Lisboa teria uma despesa de 80 mil euros com estes trabalhadores. O valor corresponde a 0,32% do orçamento do evento (25 milhões de euros).

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Segundo o Dinheiro Vivo, o programa de voluntariado terá este ano um «um incentivo extra: o trabalho feito no festival será certificado pelo Instituto Português do Desporto e Juventude, no âmbito do programa ‘Agora Nós’». O jornal, sem questionar a posição do Governo, cita o secretário de Estado do Desporto e Juventude, Emídio Guerreiro: «Os jovens que vão participar vão ter um certificado de participação que pode ser incluído nos seus currículos, dando nota dessa disponibilidade para fazer mais do que os outros.»

Assim, através deste governante, o Estado não só se associa à promoção do trabalho não remunerado, a favor de interesses privados, como ainda premeia quem a tal se submete. Guerreiro, tal como Alexandre Mestre (que o antecedeu no cargo e aconselhou os jovens portugueses a emigrar), mostra que a juventude nacional está órfã de governo. E que apelar apenas ao ganho de vergonha, já não é suficiente.