Há duas semanas, falámos nos estagiários que esta empresa usa para colmatar postos de trabalho. Agora, olhamos para outro tipo de “recrutamento” que a Veigas anuncia frequentemente, destinado a “directores comerciais”.
Procuram pessoas com experiência e oferecem «integração num projecto de sucesso comprovado» e a «possibilidade de criar e gerir» uma equipa própria, além de «formação especializada para o cargo, promovida pelo Instituto de Formação “Veigas”». Mas, no final do processo de selecção, não é uma oferta de emprego que espera os candidatos. «Como pensava reunir as condições exigidas, respondi ao anúncio, fui seleccionado para uma entrevista (foram quatro entrevistas, no total) e por fim explicaram-me que eu tinha que comprar o franchise para ter a minha loja e poder ser director comercial», indicou um dos candidatos à plataforma Ganhem Vergonha.
Falámos também com uma ex-estagiária da Veigas, que confirmou o método. «Cheguei a marcar entrevistas com pessoas que faziam 200 km. Chegavam aos escritórios e levavam com esta “tacada"».
A jovem revelou ainda que os funcionários tinham um procedimento a seguir quando alguém tocava à campainha. «Não podíamos abrir nem fazer barulho até se verificar quem era, pois podia ser a ACT e se a Veigas fosse multada… nós também seriamos». E deu um exemplo: «uma vez abri a porta ao carteiro e levei um raspanete de todo tamanho».
Esta licenciada trabalhou gratuitamente na empresa durante dois meses, até que desistiu. Nem as prometidas "ajudas de custo” recebeu. E afirma que, na entrevista, a responsável da imobiliária já a tinha avisado: «a melhor remuneração que temos não tem preço, que é o conhecimento e a experiência».
No seu site, esta agência de marketing indica que a sua missão é «aumentar as oportunidades de vendas dos seus clientes», a quem garantem o «acesso a milhões de utilizadores online e perspectivas de negócio em todo o mundo». Ora, para atingir tal fim, a Content Ignition encontrou uma nova estratégia: aproveitar-se dos desempregados.
A agência criou recentemente o Mercado do Emprego, um falso portal de ofertas de trabalho desenvolvido apenas para roubar informação. Os utilizadores são desafiados a preencher os seus dados (pessoais e profissionais) para gerar um currículo que, alegadamente, será enviado «para os e-mails de 140.000 empresas de Portugal». A página indica que na última semana recebeu mais de 1000 anúncios de emprego mas é impossível vê-los (apenas existem quatro breves referências, que mudam cada vez que se actualiza a página). No Facebook, o portal é promovido com uma imagem do IEFP, acompanhada da seguinte descrição: «Se procura emprego chegou ao sitio certo! Garantimos 96% de empregabilidade».
Só que, depois de se registarem no site, as pessoas não recebem qualquer oportunidade de trabalho. Recebem, sim, e-mails e telefonemas de empresas que lhes tentam vender produtos e serviços, como por exemplo da seguradora Medicare (no rodapé da página, pode-se ver uma lista de patrocinadores).
Por mais que as pessoas sejam alertadas para estes esquemas, o desemprego leva-as a arriscar. É inevitável. E só uma legislação mais apertada pode combater os que se aproveitam da vulnerabilidade de quem procura emprego. Quem quer contratar deve ser obrigado, por lei, a identificar-se, pois os candidatos têm o direito de conhecer o destino dos seus dados.
«A Veigas Imobiliária é a NR 1 Portuguesa a actuar no ramo imobiliário e está no Top 5 das melhores redes a funcionar em Portugal». Assim se apresenta esta empresa nos seus anúncios de emprego, entre os quais se encontram muitos pedidos de trabalhadores sem salário.
Aqui ficam ligações para alguns anúncios de “estágios” não remunerados referentes aos seus escritórios de Vila Franca de Xira:
Cada um destes casos foi replicado em vários sites ao mesmo tempo. A quantidade de publicações indicia que um posto de trabalho na Veigas Imobiliária está sucessivamente a ser ocupado por jovens sem direito a salário. E a insistência neste comportamento ilegal dá a entender que a empresa não deve temer qualquer sanção.
Esta semana, foi publicado um anúncio online destinado a engenheiros de minas, geológicos ou civis, «com experiência ou estágios» e que tenham «gosto por desafios». A oferta começa com uma apresentação do recrutador: «O Grupo Tecnovia, fundado em 1973, opera em três continentes, gera um volume de negócios anual de 330 milhões de euros e tem um portefólio integrado de serviços assente nas áreas de concessões rodoviárias e de parques de estacionamento, produção industrial, engenharia e construção, e imobiliário.»
Em seguida, o grupo admite publicamente que vai violar a lei, ao indicar que o engenheiro seleccionado será integrado num estágio não remunerado de seis a doze meses, dividido em duas fases: uma em Portugal, outra em Angola.
Qual a excepção que permite que este contratador não pague a um funcionário pelo seu trabalho? Não sabemos. Mas no seu site oficial dizem adoptar e aplicar «os mais exigentes códigos éticos e profissionais».
Terminamos com algumas notas sobre a Tecnovia:
2009: tem um lucro (resultado líquido) de 34 milhões de euros;
2010: o valor desce para os 27 milhões;
2011: aumenta o capital social das empresas participadas em 274,2 milhões de euros;
2012: coloca 340 trabalhadores do Sul do país em lay-off durante seis meses e justifica-se com a diminuição do investimento público;
2014: em Julho, o jornal I diz que«a Tecnovia foi a empresa que mais dinheiro contratualizou na última semana, com um total de 11,5 milhões de euros em apenas dois contratos».
Muitas universidades enviam e-mails com oportunidades de emprego ou de estágio para os seus actuais e antigos alunos. E, de acordo com várias denúncias que temos recebido, muitas vezes tratam-se apenas de ofertas de trabalho não remunerado ou precário. Aqui fica um exemplo, protagonizado pelo Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG).
Hoje, a instituição enviou para os seus estudantes duas ofertas de estágio em Espanha. A primeira vaga, numa empresa em Madrid, é na área do marketing e, entre outros requisitos, pede-se um falante de português (nativo). A segunda oportunidade dirige-se a graduados em gestão ou direito, que falem inglês e espanhol (alemão ou francês será uma mais-valia). Neste caso, os candidatos devem ter no mínimo seis meses de experiência numa empresa, com provas de elevado desempenho. O estágio, de cinco/seis meses, é para começar o mais rápido possível.
Num caso e noutro, os eleitos irão receber 400 euros mensais de remuneração, muito abaixo do salário mínimo espanhol, que é de 753 euros. As propostas têm origem na Spain Internship, uma empresa sevilhana de recrutamento de estudantes, que diz trabalhar com 350 firmas em Espanha.
Será que todos os que estudam no ISEG têm capacidade financeira para realizar um estágio deste tipo? E faz sentido que uma universidade pública incentive os seus alunos a serem precário no estrangeiro?
A pessoa escolhida irá desempenhar as funções de interprete e de tradutor, devendo por isso ter conhecimentos avançados («ao nível da língua nativa») de inglês, russo e ucraniano. Deve ter ainda noções de francês, além do português.
O trabalhador irá também estabelecer relações comerciais com clientes no estrangeiro (Ucrânia, Angola e Inglaterra) e participará «na elaboração, construção, desenvolvimento e manutenção de um site da empresa». Por isso, deve possuir múltiplos «conhecimentos de informática (ferramentas do office e formação em: webdesign, adobe photoshop, adobe ilustrator, adobe flsh, html, java script — com certificação)».
Para terminar, o recrutador indica que dará preferência a profissionais com carta de condução e «viatura própria».
E que tipo de vínculo espera este interprete-tradutor-comercial-webdesigner poliglota? Um contrato de seis meses, com salário de 650 euros (brutos) mais subsídio de alimentação (4,27 euros/dia).
Quando os órgãos do Estado são o veículo de ofertas de emprego assim, é suposto acreditarmos no sistema?
Esta empresa de mobiliário de Paços de Ferreira lançou um anúncio em que afirma estar à procura de «DESIGN INDUSTRIAL para criação e desenvolvimento de novos produtos» (sic). Talvez tenha sido uma gralha e quisessem escrever “designer”. Ou talvez fosse assim mesmo: querem apenas o trabalho feito, sem o trabalhador.
O trabalho de um designer, tal como o de qualquer outro profissional, implica um salário. E, neste caso, a Época Gold admite publicamente que não vai pagar o primeiro mês a quem for recrutado. Chama “estágio" a esse período. Mas o nome está errado.
Ao contrário do que é habitual, uma empresa mencionada nesta plataforma respondeu. Saudamos o comentário e relembramos que qualquer um dos nossos canais está sempre à disponibilidade das empresas para responderem às denúncias.
Em resposta ao texto publicado ontem, a Neves de Almeida deixou o seguinte comentário no Facebook:
«Lamentamos o nosso erro na oferta publicada no site Carga de Trabalhos. Valorizamos a transparência dos nossos processos de recrutamento, garantindo que tudo é feito em conformidade com as leis vigentes. Agradecemos a comunicação desta falha e, neste sentido, garantimos que as condições deste estágio estarão de acordo com a lei.»
Ora, a intenção parece boa mas achamos que a questão vai além da legalidade. Procurar alguém para trabalhar dois meses de borla, mais do que um erro legal, é uma falha moral, cívica, ética e, em último caso, de gestão de “recursos humanos”. Não é só por estar na lei que devemos pagar a quem trabalha para nós.
A Neves de Almeida é uma empresa com sede em Lisboa, Porto e Ponta Delgada. No seu site, revelam ter um sonho: «ser a melhor empresa de consultoria em recursos humanos do mundo». Há dias, lançaram um anúncio destinado a pessoas que sonham receber um salário.
Procuram um consultor/produtor de eventos para realizar um estágio profissional. Entre outros requisitos, os candidatos devem ser licenciados e ter «capacidade de trabalho sobre pressão». Devem ainda ter contactos de fornecedores, segundo a empresa revelou a um jovem interessado. O anúncio é concluído assim: «A integração na Neves de Almeida passará por um período experimental de dois meses, passado este período passará para estágio profissional». Experimental significa de borla.
São duas ilegalidades numa só frase, pois quem trabalha tem de ser pago e só está elegível para estágio profissional quem nunca teve uma relação laboral com a empresa. Relembramos que, em julho deste ano, as regras dos estágios profissionais foram alteradas. Actualmente e, na maioria dos casos, o Estado comparticipa apenas 65% do salário do estagiário, em vez dos 80 ou 100% anteriores (para empresas com menos de 10 trabalhadores, entidades privadas sem fins lucrativos ou projectos de interesse estratégico mantém-se o contributo de 80%). Logo, a Segurança Social continua a pagar mais de metade do ordenado de muitos trabalhadores de empresas privadas. Parece que, para alguns, a ajuda ainda é insuficiente.
Esta galeria lisboeta de arte contemporânea publicou um anúncio anónimo que, infelizmente, traduz bem o mercado de trabalho dos dias de hoje. Procuram um «Assistente de Produção/Administrativo», que trabalhe seis horas por dias de segunda a sábado e que, entre outras competências, domine várias ferramentas de edição web, fotografia e vídeo e tenha «experiência na área de gestão e produção cultural, atendimento ao público, vendas e/ou com interesse manifesto em desenvolver competências neste domínio».
E quais são as condições que esperam esta pessoa multifacetada? Inicialmente, será submetido a um «período experimental», com duração máxima de três meses, em que apenas vai receber uma bolsa de ajudas de custo, segundo apuramos com a doutora responsável pela oferta. Depois, o trabalhador avança para um «estágio profissional com duração de 9 a 12 meses» (actualmente, já não existem estágios de um ano). Este procedimento é ilegal, pois nenhum contrato de estágio pode ser assinado entre empregador e estagiário se antes já tiver existido um vínculo entre ambos.
Depois do estágio, a Perve diz que existe a «possibilidade de integração na empresa através de contratação a termo» e, após as três fazes, «caso exista manifesto interesse de ambas partes, será celebrado um contrato de trabalho sem termo».
O anúncio publicado não estava assinado pela galeria. Os motivos podem ser vários mas, se tivéssemos de dar um palpite, diríamos que foi por vergonha.