Esta agência de publicidade publicou um anúncio no site Carga de Trabalhos em que informa estar à procura de um director de arte/designer. O trabalhador escolhido será integrado num «estágio de adaptação e avaliação» não remunerado. Depois da avaliação, a empresa decide se o integra ou não.
A duração do período em que o profissional irá trabalhar gratuitamente não é especificada. A um candidato que levantou a questão, a BBZ respondeu que este falso estágio «poderá ter a duração completa que emana da lei nestes casos». E aí é que está o problema. Segundo as leis portuguesas (e, já agora, a Declaração Universal dos Direitos do Homem), quem quer trabalho tem de o pagar.
Um dos principais objectivos do Ganhem Vergonha é apelar à necessidade de regular os anúncios de emprego. Esta oferta anónima, supostamente publicada por uma agência de publicidade do Porto, é um exemplo do que levou à criação deste blogue.
No site Carga de Trabalhos — onde abundam anúncios semelhantes — a alegada empresa pede a profissionais que enviem currículos e portefólios, mas diz que só vai revelar a sua identidade aos seleccionados. Como se fosse um prémio que nem todos merecem receber.
Este tipo de oferta levanta-nos sempre três dúvidas:
Se for mesmo uma agência de publicidade, estarão apenas a espiar portefólios para procurar ideias?
Será uma entidade a criar bases de dados, segmentadas por área profissional, idades, localização, etc.?
Ou terá sido o próprio Carga de Trabalhos a criar o anúncio para ter mais visitas no site?
O mistério leva a especulações. Pode ser também que a agência não queira que os seus trabalhadores, ou as empresas concorrentes, saibam que está à procura de outras pessoas. Mas se assim for, o melhor é não publicarem ofertas.
A falta de transparência nos anúncios prejudica as duas partes. Uma empresa que se esconde numa oferta de emprego nunca irá atingir os melhores trabalhadores do seu sector. Apenas os desesperados.
Grande parte dos contratos de trabalho pressupõe um mês de experiência, período em que o trabalhador e a entidade patronal podem cessar o acordo se quiserem, sem qualquer indemnização. Ainda assim, muitas empresas criam períodos experimentais próprios.
A Reciclinfor anunciou recentemente que procura um licenciado ou um finalista de Engenharia Ambiental. Após o primeiro mês, em que o trabalhador não será remunerado, a empresa irá decidir se o integra nos quadros ou num novo estágio — desta vez profissional.
Contactada pelo Ganhem Vergonha, a Reciclinfor informa que o estágio é curricular, mas desconhecemos a existência de um curso de Engenharia que contenha estágios de um mês no seu currículo. «Não consideramos que estejamos a abusar de ninguém! — disse-nos uma representante da empresa. «Aliás já abusaram várias vezes de nós e por esse motivo agora temos este modus operandi», concluiu.
Achamos que está na altura dos jovens deixarem de gastar o tempo e o latim. Quem trabalha tem de exigir receber.