Posts com a tag 'estádio da luz'.

image

Nos jornais, na Internet e nas televisões, especialistas em recursos humanos não param de repetir que as experiências de voluntariado são agora muito valorizadas nas entrevistas de emprego. As vantagens são infindáveis. Atreladas a esta tendência, muitas entidades procuram voluntários para desempenhar tarefas que, à partida, não deveriam excluir remuneração. Já falámos aqui de alguns casos, como o festival Rock in Rio, a Experimenta Design ou a Turrisespaços, empresa municipal de Torres Vedras, e olhamos agora para a final da Liga dos Campeões, que este ano se realiza em Lisboa.

A UEFA escolheu o Estádio da Luz após uma candidatura da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e o evento terá o apoio da Câmara Municipal e de muitos patrocinadores privados. Segundo o director-geral da FPF, Tiago Craveiro, espera-se uma média de 400 a 500 euros de consumo, por visitante, e estima-se que 110 milhões de pessoas vão ver o jogo pela televisão. Os bilhetes para a partida custam entre 70 e 390 euros, com excepção de 3400 bilhetes VIP, com preços entre 1950 e 4440 euros. É o culminar de uma época de competições europeias, que envolveu muito dinheiro (em 2012/2013, as receitas comerciais da UEFA Champions League e SuperTaça Europeia atingiram os 1,34 mil milhões de euros, dos quais apenas 530 milhões foram distribuídos pelos clubes).

A organização do evento, comandada por UEFA e FPF, envolve seis mil pessoas, desde profissionais das duas entidades, staff recrutado, policias, stewards, profissionais de saúde e animadores. Todos serão remunerados, excepto os 400 bailarinos que vão participar nas cerimónias de abertura e de encerramento. O pedido de voluntários foi promovido pelo Instituto Português do Desporto e Juventude e foi divulgado em muitos meios.

A produção das cerimónias estará a cargo da empresa canadiana Circo de Bakuza e as coreografias serão dirigidas por Wanda Rokicki, responsável por acções semelhantes em eventos como os Jogos Olímpicos de Atenas ou o Mundial da África do Sul. Supomos que quer os canadianos quer a autora inglesa serão remunerados pelo seu trabalho, ao contrário dos figurantes, que terão ensaios durante um mês e nem a um bilhete para o jogo terão direito.

Num país em que as artes e a cultura têm sido tão prejudicadas pela austeridade, e onde existem imensos organismos ligados à dança (sejam profissionais, amadores ou educativos), fará sentido recrutar bailarinos voluntários para um evento milionário? O orçamento da organização seria muito afectado se lhes pagassem?

A música pode mudar, mas nós não dançamos. Já ouvimos vários argumentos sobre as vantagens deste tipo de voluntariado mas há uma pergunta que nunca vimos respondida satisfatoriamente: se a actividade fosse paga, quais dessas vantagens se perderiam?