
“Cheguei a uma entrevista para o cargo de jornalista na Gestão Global após alguns meses no desemprego. Antes, tinha passado por uma licenciatura, alguma formação profissional, três estágios (um curricular, um profissional e um internacional), empregos a recibos verdes, contratos a termo e até um sem termo. Em sete anos de trabalho, divididos entre sector privado e sector público, colecionei muitos processos de recrutamento. Aquela foi a primeira vez em que, desde o início, senti que me falavam já como contratado e não como candidato.
As instalações pareciam modernas e só vi três pessoas, todas na casa dos trinta. Passados uns dias, confirmaram a minha selecção e convocaram-me para uma data. À pergunta sobre as condições do contrato, responderam que falaríamos depois.
No dia agendado, só aparecemos três dos quatro seleccionados. Às duas raparigas que me tinham entrevistado – uma jornalista e uma editora (que pareciam no mesmo nível hierárquico) – juntou-se o director da empresa. Falou durante mais de uma hora sobre o funcionamento da revista. Disse que não assinaríamos os artigos mas que o nosso nome constaria na ficha técnica (nada contra, já que o tipo de trabalho não permitia grandes traços autorais). Acrescentou que o cargo seria muito bom para o nosso currículo e que era um privilégio podermos escrever para a revista com maior tiragem a nível nacional: 400 mil exemplares. “Uma vez que vocês são um encarte do JN tanto vale que sejam uma revista sobre empresas ou um folheto do professor Karamba”, pensei, mas tentei afastar a desconfiança.
O líder da Gestão Global continuoua esmiuçar o cargo e as estratégias para o desempenharmos com sucesso, explicando que quantos mais clientes angariássemos, mais ganharíamos. Intercalava o discurso com considerações sobre o estado da crise nacional. Falava-nos já como nosso patrão e parecia sentir-se um professor a ensinar uns truques aos seus discípulos. Aparentava nem sequer considerar a hipótese de nós podermos rejeitar a oferta. Terminada a propaganda disse que ia ao café e que devíamos tirar as dúvidas com as raparigas.
A jornalista insinuou que ganhava muito dinheiro e que não seria difícil obter bons resultados. Informou-nos de que teríamos o salário mínimo como base, mais subsídio de alimentação, e de que ganharíamos comissões. Se conseguíssemos angariar até 3 mil euros, não haveria comissões. Entre três e cinco mil euros, teríamos direito a cinco por cento do valor alcançado. Havia depois patamares de comissões superiores, de oito, dez e quinze por cento. No primeiro mês, que seria à experiência, os três mil seriam o nosso objectivo mínimo. No final, decidiriam quem seria contratado: podíamos ser todos, apenas um, ou nenhum.
Perguntaram se todos tínhamos carro para as visitas aos clientes e todos respondemos que sim. As despesas seriam pagas. Achei que se um cliente me visse chegar à sua empresa no meu carro velho, chamaria um segurança, mas nada disse. Depois, quiseram saber se tínhamos computador: novo sim geral, mas desta vez já respondi contrariado. A questão seguinte foi sobre máquina fotográfica e desta vez já disse não ter. Fui o único. “Temos de arranjar uma câmara para o Francisco", apontou a editora.
Em seguida, simulámos telefonemas para os clientes e, aparentemente, todos tínhamos jeito. Estávamos numa Quinta-Feira e começaram a dar-nos as indicações de trabalho para Segunda. Outra jornalista juntou-se a nós e pareceu-me ter um ar infeliz. Entretanto, a editora, muito alegre, disparou: “Estamos aqui a falar e ainda nem sequer vimos se vocês sabem escrever”. Enquanto eu pensava que aquela era das coisas mais sérias que tinham dito durante a tarde, ela fechou o tema: “Bem, a julgar pelos vossos currículos, de certeza que sim”. Terminou perguntando se tínhamos alguma dúvida.
Os meus colegas não tinham. Talvez fosse apenas o medo de perguntar, típico nos desempregados. Levantei o braço e disse que tinha uma, das pequenas: como seria o contrato no primeiro mês, se é que existia. A jornalista, menos segura do que até aí, disse que não havia contrato e que seria uma prestação de serviços. Um completo falso recibo verde, portanto. Não sei ao certo quanto restaria aos 485 euros (mais subsídio de alimentação) depois de subtrair os descontos “verdes”, mas talvez chegasse, à justa, para a minha comida, renda e gasolina.
Começaram a despedir-se, sem pedirem que confirmássemos o nosso interesse no posto. Expliquei-lhes, então, que tinham uma entrevista em Lisboa no dia seguinte (era verdade) e que só no fim-de-semana lhes daria a minha resposta. Pareceram surpreendidas. A editora ligou ao director, comunicando-lhe que já íamos sair e esperamos que ele regressasse para também se despedir. Mal entrou na sala, e de forma fanfarrona, questionou: “quem é que aqui vai amanhã para Lisboa?”. Aproximei-me e ele continuou: “Olhe que lá em baixo não vai arranjar melhor do que isto”, ironizou. Com um sorriso amarelo escondi o que me ia na cabeça: “Levar com um pau nas costas é melhor do que isto”.
Quando saí, parecia-me legítimo pensar que podiam fazer aquilo todos os meses sem contratar ninguém no final. Seria uma forma de garantir, com mão-de-obra baratíssima, a publicação mensal da “revista com maior tiragem em Portugal”. Mais tarde vim a saber, entre outras coisas, que nenhum daqueles colegas recrutados aguentou muito tempo e que não receberam o que lhes fora prometido.”
Francisco