Empresa promove-se com concurso e usa dinheiro público como prémio

Não é nova a tendência de transformar um processo de recrutamento numa oportunidade para promover uma empresa. Apresentámos já vários exemplos no passado
— como as acções da Tezenis e da Randstad ou dois falsos motores de busca de emprego — e até dedicámos ao tema um capítulo no livro Trabalho igual, salário diferente. Desta vez, falamos numa iniciativa lançada em Portugal pela Sika, multinacional que comercializa materiais de construção.
Através de um concurso, a empresa está à procura de ideias «para a requalificação e desempenho a longo-prazo do(s) edifício(s)» de uma «IPSS escolhida pelo concorrente, no âmbito do exercício da arquitectura». As propostas têm obrigatoriamente de ser pensadas para «produtos Sika».
E quais são os prémios? O autor da ideia vencedora terá acesso a um estágio na Sika financiado com dinheiro público pelo IEFP, enquanto a IPSS envolvida receberá produtos da empresa.
Ou seja, uma medida de apoio à contratação criada pelo Estado é transformada num troféu que é usado como material de promoção comercial.
Além disso, no regulamento do concurso não se salvaguarda quaisquer direitos autorais dos participantes. Portanto, se 20 arquitetos/engenheiros concorrerem, a Sika ficará com 20 ideias para aplicar os seus produtos, sem ter de pagar qualquer compensação a quem para a empresa trabalhou. Esta prática é conhecida por «trabalho especulativo» (e é outro dos temas do nosso livro).
