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Um dos principais objectivos do Ganhem Vergonha é apelar à necessidade de regular os anúncios de emprego. Esta oferta anónima, supostamente publicada por uma agência de publicidade do Porto, é um  exemplo do que levou à criação deste blogue.

No site Carga de Trabalhos — onde abundam anúncios semelhantes — a alegada empresa pede a profissionais que enviem currículos e portefólios, mas diz que só vai revelar a sua identidade aos seleccionados. Como se fosse um prémio que nem todos merecem receber. 

Este tipo de oferta levanta-nos sempre três dúvidas:

  1. Se for mesmo uma agência de publicidade, estarão apenas a espiar portefólios para procurar ideias?
  2. Será uma entidade a criar bases de dados, segmentadas por área profissional, idades, localização, etc.?
  3. Ou terá sido o próprio Carga de Trabalhos a criar o anúncio para ter mais visitas no site?

O mistério leva a especulações. Pode ser também que a agência não queira que os seus trabalhadores, ou as empresas concorrentes, saibam que está à procura de outras pessoas. Mas se assim for, o melhor é não publicarem ofertas.

A falta de transparência nos anúncios prejudica as duas partes. Uma empresa que se esconde numa oferta de emprego nunca irá atingir os melhores trabalhadores do seu sector. Apenas os desesperados.

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Em Portugal, é normal que quem trabalha nas chamadas “indústrias criativas” não seja considerado um trabalhador de pleno direito. Se há clientes para satisfazer, a lei é posta de lado. Entre outros abusos, são comuns as “borlas”, os salários baixos , os “falsos recibos verdes”, o desrespeito pelos horários ou os atrasos nos pagamentos. Nestas áreas, há demasiado espaço para ideias que permitem a uns aproveitarem-se do trabalho de outros.

Esta semana, a agência The Hotel abriu candidaturas para um inovador, e ilegal, programa de estágios, ao qual chamam “The Hostel”. Procuram oito jovens, divididos em dois turnos, para trabalhar durante quatro meses sem salário. De acordo com o jornal Dinheiro Vivo, os primeiros quatro escolhidos vão desenvolver ideias que a empresa irá (tentar) vender à Sumol+Compal*. O segundo «lote de jovens criativos» irá trabalhar para outro cliente.

Quanto às possibilidades de continuidade no final do “estágio”, a resposta é dada no anúncio: «Findos os 4 meses, para além da experiência e da aprendizagem, há sempre a hipótese de, assim o trabalho o justifique, subires para o piso de cima e integrares a equipa da The Hotel. Mas isso já será outra conversa».

O assunto é ainda mais grave quando esta ladainha é difundida por um órgão de comunicação social, sem qualquer referência à ilegalidade do recrutamento. Ao fazê-lo, o Dinheiro Vivo torna-se cúmplice do abuso e mostra como se troca a deontologia jornalística por publicidade encapotada e sem escrúpulos.

Estágios de quatro meses sem remuneração são ilegais, sejam individuais ou “ao lote”.

 

*Será que a Sumol+Compal também não vai pagar pelas ideias à agência The Hotel? Vamos contactar a empresa para tentar esclarecer a questão.