
Em seguida, podem ler alguns dos testemunhos que recebemos de ex-estagiários da Menina Design.
Testemunho I
«Todos os casos que conheço de trabalhadores/colaboradores da Menina Design Group (MDG) começaram da mesma forma que a minha experiência. Primeiro descobre-se uma oferta para estágio profissional num qualquer site ou portal de empregos online e depois de se enviar o currículo e portefólio recebe-se um questionário de 40 ou 50 perguntas a que se tem de responder para se passar à próxima fase de “entrevista” (isto ainda via online). Se se tiver a capacidade de cair nas boas graças é-se chamado para uma entrevista presencial que decorre no Palácio das Artes, Largo de S. Domingos, Porto.
E é aqui que a história começa a mudar de figura. Depois de uma primeira parte em que tudo parece estar a correr bem é-nos dito que antes de se entrar em estágio profissional teremos de estar à experiência durante 3 meses. Uma das causas apontada é o facto de o IEFP demorar imenso tempo a aprovar o estágio, uma mentira descarada que qualquer pessoa poderá comprovar no site da mesma entidade.
Muitos dos meus colegas aceitaram estas condições. Eu tive a sorte de ir substituir alguém que tinha saído recentemente e repentinamente na área do web design e programação e por isso tive a sorte de entrar a receber, mas não sem antes estar três semanas a trabalhar para a MDG a partir de casa, de graça.
E o que acontece ao estagiário que não tem esta sorte? Esse estagiário ficará pelo menos três meses a trabalhar sem ter direito a qualquer remuneração.
Posso dizer que chegou a existir uma altura em que, para 10 pessoas remuneradas (nem sempre licitamente), havia 30 a 40 estagiários não-remunerados. As condições de trabalho também não eram as melhores, principalmente na altura de maior afluência de estagiários, onde acontecia uma pessoa chegar para trabalhar e não ter onde se sentar ou onde colocar o portátil (não havia computadores ou material informático de trabalho da empresa, tinha de ser trazido pelo trabalhador). Isto levou a alguns incidentes e discussões de colegas pela posse de um lugar fixo ou mesas de trabalho definidas.
A MDG é detentora de um enorme número de submarcas e as pessoas responsáveis trabalhavam todas no mesmo sítio, sob um ambiente em que mal se podia falar ou trocar ideias. Um ambiente pesado em que não podia haver risos ou trocas espontâneas de ideias (estamos a falar de uma empresa que trabalha na área da criatividade). Queres ouvir musica? Ouves nos teus phones! Tudo bem. Mas pior e mais sombrio que isso, se querias trocar uma ideia ou sugestão sobre um projecto da empresa com um colega, que por sinal estaria ao teu lado ou na tua mesa, tinhas de enviar por Skype! Devo dizer que foi o estágio na MDG que me levou a utilizar o Skype e eu gostei tanto da experiência que tive com o software nesta empresa que desde que saí nunca mais o abri.
O horário oficialmente estabelecido para a MDG era das 10:00 às 13:00, almoço e depois das 14:00 às 19:00, mas a chefia queria que todos estivessem no local de trabalho às 9:30 e a hora de saída não era definida.
Diziam (a chefia) que ali se trabalha por objectivos, muito bem, mas quando os objectivos do dia eram cumpridos ninguém estava dispensado de sair mais cedo, ou seja, acontecia que se tivesses cumprido os objectivos, começavas os do dia seguinte, mas se por ventura não tivesses terminado os teus objectivos para o dia, tinhas de fazer horas extra, não importava quantas e não importava o quê, pois no dia seguinte, por muitas horas que tivesses trabalhado no dia anterior, se não estivesses no local às 9:30, eras chamado à atenção e/ou repreendido.
A pressão era exercida 24 horas por dia. Para que se consiga enquadrar a situação da MDG, o principal sócio, Amândio Pereira, vivia nos U.S.A., o que fazia com que este não tivesse uma noção real do trabalho desenvolvido e empregue na MDG, no Porto. Para este senhor a arma de eleição era, mais uma vez, o Skype ou o email interno da empresa (cada colaborador tinha uma conta) onde fazia comunicados com linguagem imprópria e ultimatos, ameaçando de despedimento com uma regularidade alarmante (só eu tive quatro ameaças de despedimento em cinco meses), por motivos quase surreais, como por exemplo usar-se um lápis de grafite para se esboçarem layouts em vez de uma caneta de cor preta (exigência da empresa), mesmo quando esses layout eram para referência do colaborador/trabalhador e nunca para apresentar daquela forma a superiores ou clientes externos.
A “chefia” presente no Palácio das Artes, Porto, seguem à risca as ordens de Amândio Pereira e, pelo que vivi, das duas uma, ou são pessoas com um imenso vazio moral ou não têm capacidade de se impor, mesmo quando sabem que algo está a ser feito da forma errada. “Foi o Amândio que disse para fazer assim” era uma frase regular, fosse qual fosse o plano profissional. Marketing, gestão, design de produto, design gráfico, web design, programação, não interessa, se o Amândio (formado em design de produto) dizia, tinha de se fazer assim. Os chefes eram, portanto, meros fantoches, replicadores das exigências do verdadeiro chefe.
Todos os trabalhadores das áreas criativas da MDG eram obrigados a fazer “Mercados”, palavra que designava a tarefa de espalhar mensagem sobre os produtos da empresa nas redes sociais, através de perfis falsos (por exemplo Amanda Martin, Catherine Leccia, Claire Foward, Clare Phyta, Nathalie Gustaff, Emily Taylor ou Isabella Macheatoutti). Eram estabelecidos mínimos para os contactos desenvolvidos, pelo números de respostas positivas obtidas e pelo número de vendas. Tudo isto para além das funções estabelecidas em contracto (se existisse).
Eu fui contratado para um estágio de nove meses, mas saí ao quinto, precisamente no seguimento da utilização do lápis em esboços meus. Existiram colegas (estagiárias de programas Erasmus) que foram dispensadas sem aviso prévio, com o argumento de que não produziam como e quanto devia. Pois claro que não! Se ninguém lhes dizia o que deviam fazer!
Conheci alguns estagiários que para terminar a sua licenciatura lhes era requerido que fizessem um estágio de três meses num qualquer gabinete ou empresa da área de Design e até esses eram maltratados.
Vi gente a chorar no local de trabalho por não aguentar mais a pressão exercida do outro lado do atlântico e gente a perder o controlo. Muitas discussões sobre coisas motivadas por uma simples coisa: lucro. Era a palavra de ordem na MDG: lucro, fazer dinheiro! Numa empresa em que 75 por cento dos trabalhadores das áreas criativas de design de produto, design gráfico, web design e marketing não eram pagos.
E é isto, espero que façam bom uso da minha história, porque a MDG é mesmo mais um dos sítios em Portugal onde entramos iludidos e saímos revoltados e explorados.»
Daniel