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A Boca do Lobo é uma marca de design de mobiliário de luxo, que pertence ao Menina Design Group. Há uma semana, a marca anunciou que procura «campeões» que queiram preencher uma vaga disponível na sua «equipa vibrante». O trabalhador seleccionado será recrutado em regime de estágio profissional. «Escolhe uma carreira connosco» (em inglês) é o título do anúncio.

Aconselhámos os que tiverem concorrido, e os que ainda pensem concorrer, a ver a reportagem que a RTP publicou sobre o grupo Menina Design, há um ano, após revelarmos o procedimento vergonhoso da empresa.

→ Testemunhos de antigos estagiários: http://ganhemvergonha.pt/search/menina+design.

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O Menina Design Group engloba várias marcas e projectos de design, ligados ao mobiliário e à iluminação de luxo: Boca do Lobo, Brabbu, Secret Brands, Delightfull, Koket, Preggo, Portugal Brands, MDI, My Design Agenda, Design Gallerist, Clube Delux. Apesar de tanto nome, a estratégia de recrutamento é sempre a mesma.

Integram fornadas de jovens (a quem chamam “estagiários”) e submetem-nos a um período de trabalho experimental não remunerado (a que chamam “formação”). Durante algumas semanas, as pessoas oferecem o seu trabalho, feito com os seus próprios computadores e software, para benefício do Menina Design Group. No final, os que resistem e agradam à empresa, são contratados através de um estágio profissional financiado pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP). O procedimento é ilegal, pois estes estágios não se podem realizar quando já houve uma relação laboral entre a empresa e o jovem.

Há cerca de um ano, falámos sobre esta prática da empresa. O caso teve algum impacto e gerou até uma reportagem da RTP. Mas, a julgar por alguns testemunhos que temos recebido, a estratégia continua. A empresa tem publicado várias anúncios nos últimos tempos, para diferentes cargos: exemplo I e exemplo II.

Quem pensar em candidatar-se para uma das marcas do Menina Design Group, pode ver aqui alguns testemunhos de ex-estagiários: testemunho I, testemunho II, testemunho III e testemunho IV.

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Em 2013, a plataforma Ganhem Vergonha divulgou uma prática usada frequentemente pelo Menina Design Group (MDG): os estágios não remunerados de pré-selecção para estágios financiados pelo IEFP. E publicou ainda quatro testemunhos de pré-estagiários que passaram pela experiência (1.º, 2.º, 3.º e 4.º). A denúncia acabaria por dar origem a uma investigação académica de estudantes de jornalismo da Universidade Lusófona e a uma reportagem da RTP

De acordo com depoimentos recebidos, a plataforma sabe agora que, em 2015, o MDG continuava a usar processos de recrutamento abusivos. Nesse ano, a empresa recebeu, às dezenas e de forma contínua, jovens aliciados para a realização de um estágio profissional. Mas antes da formalização do contrato com o IEFP, os candidatos foram submetidos a semanas de trabalho sem vínculo, período apelidado de formação

Em seguida, apresentamos o relato (divido em capítulos) de N. Mota, um dos formandos:

1 – Candidatura a um emprego
No Outono de 2015, candidatei-me a para o cargo de marketeer, em resposta a um anúncio alegadamente publicado por uma entidade chamada Secret Brands. Quando fui chamada para a entrevista percebi que o recrutador era o MDG, detentor de marcas como Boca do Lobo, Delightfull, Brabbu, Koket, Maison Valentina, Luxxu, Circu ou Covet Lounge.

2 – Entrevista
Na entrevista disseram-me que seria recrutado mas que primeiro teria de fazer uma formação de três semanas, antes de assinar contrato. Ao fim desse período, receberia 150 euros de prémio e depois assinaria um contrato enquadrado num programa financiado pelo IEFP. Achei aquilo estranho, mas aceitei para ver no que dava.

3 – Formação: 1.ª semana
Comecei a fazer formação juntamente com mais 10 pessoas, a full time. Soube mais tarde que uma semana antes outro grupo tinha iniciado a formação, o que já teria acontecido na semana anterior a essa. Tínhamos de levar os nossos próprios computadores portáteis (um dos meus colegas teve que comprar um propositadamente) e mandavam-nos fazer exercícios como pesquisas de mercado ou análise da presença das marcas da empresa nas redes sociais. E, enquanto isso, a empresa pedia-me que enviasse diversa documentação, necessária para a celebração do contrato, e ainda uma ficha de funcionário preenchida.

Os exercícios não pareciam ter muito que ver com as funções que supostamente iríamos desempenhar no futuro e mais pareciam ser testes psicológicos para ver se conseguíamos trabalhar sob stress [uma funcionária da MDG viria a admitir posteriormente que a estratégia é usada para separar o trigo do joio]. Para conseguir fazer o primeira exercício, todos nós – os que não desistiram logo na primeira semana – tivemos de adiantar trabalho durante o fim-de-semana, pois não era possível terminá-lo no prazo exigido.

4 – Formação: 2.ª semana
Muitos de nós tínhamos visto as denúncias publicadas na plataforma Ganhem Vergonha, assim como a reportagem da RTP. E começámos a desconfiar da situação, pois a todos havia sido garantido que seria assinado um contrato e até então ninguém o tinha feito. Ficámos ainda mais apreensivos quando mandaram embora um rapaz de outro grupo,  que estava em formação há mais tempo e terminá-la-ia no dia seguinte. Levantámos questões e a empresa justificou-se dizendo que assinaríamos contrato, sim, mas apenas se cumpríssemos as tarefas todas, algo que o tal rapaz não tinha feito.

Ainda nessa semana, chegou outro grupo para formação, aumentando as nossas desconfianças, pois achámos muito estranho que contratassem tantas pessoas ao mesmo tempo.

No final da semana, os que restavam do nosso grupo (vários já tinham desistido) foram convocados para uma reunião com o director de recursos humanos da empresa. Pareceu também querer testar-nos. Perguntou, por exemplo, por que motivo tínhamos pedido aquela reunião, quando não tínhamos sido nós a pedir nada. Depois, disse que estava muito desiludido connosco e que não fazíamos os exercícios em condições, apesar de nos terem sido atribuídas boas notas quando os havíamos feito. Além disso, esperava que nós soubéssemos que tipo de trabalho iríamos fazer depois de assinar contrato, mesmo que nunca nos tivessem dito quais seriam as nossas funções. A certa altura, chamou uma das pessoas responsáveis pela formação e perguntou-lhe se achava que nós iríamos ficar na empresa. «Talvez duas delas», foi a resposta.

Mas então não era suposto assinarmos todos contrato? E depois não nos tinham dito que o assinaríamos se fizéssemos as tarefas todas? Mais uma vez, alteravam o discurso.

No fim da reunião, o director disse que na semana seguinte só precisava de ir para a empresa quem quisesse. Achei que seria só para nos testar e pensei seriamente em desistir, mas não quis dar-lhes esse gosto, pelo que continuei a apresentar-me.

5 – Formação: 3.ª semana
A MDG decidiu que eu e outra colega não iríamos terminar a formação embora tivéssemos feito bem todos os exercícios. Fomos dispensados e não recebemos nada, nem sequer parte do prémio. Creio que alguns dos resultados obtidos nos exercícios dos vários grupos de formação são depois aproveitados pela empresa.

Uma última nota: a MDG facturou 14 milhões de euros em 2014.


Mais uma vez, a plataforma Ganhem Vergonha perguntou à empresa se desmentia alguma desta informação mas, tal como aconteceu em 2013, não chegou qualquer resposta.

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Recebemos um número significativo de e-mails de antigos estagiários da empresa Menina Design Group com denúncias de vários comportamentos sem vergonha. Não acreditamos muito em fumo sem fogo, mas procuramos obter outros testemunhos e provas que sustentassem as acusações. Após várias conversas com antigos trabalhadores da empresa, concluímos que:

1 – Frequentemente, a Menina Design anuncia na Internet que procura trabalhadores com formação superior e “ilegíveis para estágios profissionais IEFP” (analisando apenas o site Carga de Trabalhos, encontram-se cerca de vinte anúncios publicados desde Maio de 2011). 

2 – Depois de enviarem currículo e portefólio, os candidatos têm de responder a um questionário de 40 a 50 perguntas antes de serem chamados a entrevista;

3 – Aos escolhidos é dito que, antes do estágio profissional, afinal têm de trabalhar à experiência durante três meses, sem remuneração (são vários os relatos que referem períodos mais longos);

4 – Várias pessoas afirmam que nas instalações da empresa trabalham mais estagiários não remunerados do que trabalhadores com vínculo laboral (há quem fale em 10, 20 ou mesmo 30 estagiários sem remuneração em simultâneo e há referências à falta de espaço físico para albergá-los a todos);

5 – Nas instalações da empresa ou a partir de casa, os estagiários trabalham nos seus computadores e usam software próprio, sem as licenças que tal ofício exige.

6 – A hora de entrada destes estagiários (apelidados pelo patrão de “guerreiros”) é às 9h30 e a de saída é às 19 horas, mas essa nunca é cumprida;

7 – Seguindo ordens e pressões superiores, é normal os estagiários trabalharem aos Sábados;

8 – A Menina Design comercializa produtos a preços elevados, muitos deles da autoria destes estagiários, sem qualquer direito a royalties. 

9 – Vários estagiários afirmam terem sofrido ameaças de despedimento, pressão constante e contactos com linguagem imprópria da parte dos responsáveis da empresa;

10 – Alguns destes trabalhadores não remunerados apresentaram queixas no IEFP, mas afirmam que a entidade é conivente com a empresa e que nada se alterou.

Ganhem vergonha!

Nota: Enviámos a informação aqui publicada para a empresa, mas ainda não obtivemos resposta. Teremos todo o gosto em publicá-la.

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Testemunho IV

«Estagiei lá quatro meses, juntamente com mais 12 pessoas das mais diferentes áreas. Todos em horário de trabalho full-time. Nunca nenhum de nós viu um euro desta empresa, pelo contrário, só exigiam de nós, estando sempre a indicar-nos a porta de saída sempre que protestávamos sobre as suas condições. E ainda tinham o descaramento de nos dizer que designers na nossa situação havia muitos, e se quisessem no mês a seguir já tinham lá mais meia dúzia a fazer estágios não remunerados.

Toda a comunicação social deste país coloca estas marcas como as impulsionadoras do design português e está na altura de desmascarar esta mentira. Se eles conseguiram atingir este sucesso foi graças a dezenas, se não centenas, de estagiários que por lá passaram durante estes últimos anos.

Tenho a certeza que basta pesquisarem na Internet que encontrarão mais registos de casos de abuso por parte destas marcas.»

David

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Testemunho III

«Eu na altura estava a fazer um programa tipo estágio profissional, por isso fui remunerada. Depois do estágio quiseram contratar-me, mas na realidade continuei lá a trabalhar de borla (não me fizeram contrato nenhum) e tive de me zangar para conseguir que me pagassem… Na minha altura não havia muitos estagiários, estávamos sim era num sítio sem condições nenhumas. É verdade que a pressão para trabalhar de dia e de noite mais fins de semana existe e é horrível. Eu fui forte o suficiente para recusar, mas era constantemente encarada de lado (até pelos próprios colegas) porque chegava à minha hora e simplesmente saía. Na altura puseram colegas meus, de áreas como Marketing e Design, a trabalhar na carpintaria, porque não conseguiam dar conta de tantas encomendas! E eles eram estagiários como eu. Eles punham as pessoas a fazer estágios IEFP, depois estágios INOVjovem, depois estágios do IAPMEI… E lá andavam as pessoas durante meses, de estágio em estágio, sem nunca serem contratadas, ou quando eram, era por um valor quase simbólico. Aos de marketing/vendas, para compensar os salários irrisórios, prometiam comissões que depois nunca eram pagas: ou arranjavam argumentos para não pagar (tipo “essa venda não foi feita por ti”, o que não era verdade) ou simplesmente “esqueciam-se”. Eu denunciei ao IEFP o comportamento deles, mas depois li isto e não me parece que tenha adiantado nada:

http://ressabiator.wordpress.com/2011/11/26/ha/

Isto tudo sem falar nas pressões e humilhações, que eram constantes. O Sr. Amândio Pereira, de cada vez que pedia para fazermos qualquer coisa, já tinha a sua própria ideia de como essa tarefa devia ser feita. Então, quando apresentávamos o trabalho, como nunca era exactamente igual ao que ele tinha idealizado, eramos completamente humilhados. Ele tentava mesmo dar cabo da nossa auto-estima e chegou a dizer “esta equipa é toda burra”… O que me valeu foi que nessa altura já estava a contar os dias para sair dali.»

Ana

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Testemunho II

«A empresa funciona à base de estagiários não remunerados. Todos os meses, ou de dois em dois meses, recrutam pessoas pelo Carga de Trabalhos com a promessa de estágios profissionais. Seleccionam alguns estagiários (por vezes entravam 20 de uma vez) e aí começa a fase de “experiência”. Durante três meses trabalha-se entre 10 e 12 horas por dia, quando não são mais, e quem não aparece aos Sábados para fazer mais umas horas extra deixa de ser considerado para estágio profissional.

Este trabalho é feito em computadores pessoais sem licenças oficiais de programas (é uma empresa de design pelo que 99 por cento das pessoas trabalham com ferramentas que necessitam de licenças).

Este tempo à experiência varia… Vários dos meus colegas não receberam nos primeiros 5/6 meses.

Inicialmente põem-nos em contacto com o CEO (Amândio Pereira) via skype (ele passa a maior parte do ano nos Estados Unidos). As primeiras conversas são motivantes. Ele incentiva-nos a vestir a camisola pela empresa e a dar o nosso máximo para conseguirmos uma posição lá dentro. Essas conversas passam de motivantes a intimidadoras no espaço de semanas. São-nos atribuídos objectivos (inatingíveis) mensalmente e quando começa a haver atrasos o nível da conversa pode descer MUITO baixo. Eu sou designer gráfica e numa situação chegaram-me a dizer que não receberia ordenado se um catálogo não estivesse pronto para imprimir nesse dia ou no dia a seguir. A pressão psicológica é constante.»

Inês

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Em seguida, podem ler alguns dos testemunhos que recebemos de ex-estagiários da Menina Design.

Testemunho I

«Todos os casos que conheço de trabalhadores/colaboradores da Menina Design Group (MDG) começaram da mesma forma que a minha experiência. Primeiro descobre-se uma oferta para estágio profissional num qualquer site ou portal de empregos online e depois de se enviar o currículo e portefólio recebe-se um questionário de 40 ou 50 perguntas a que se tem de responder para se passar à próxima fase de “entrevista” (isto ainda via online). Se se tiver a capacidade de cair nas boas graças é-se chamado para uma entrevista presencial que decorre no Palácio das Artes, Largo de S. Domingos, Porto.

E é aqui que a história começa a mudar de figura. Depois de uma primeira parte em que tudo parece estar a correr bem é-nos dito que antes de se entrar em estágio profissional teremos de estar à experiência durante 3 meses. Uma das causas apontada é o facto de o IEFP demorar imenso tempo a aprovar o estágio, uma mentira descarada que qualquer pessoa poderá comprovar no site da mesma entidade.

Muitos dos meus colegas aceitaram estas condições. Eu tive a sorte de ir substituir alguém que tinha saído recentemente e repentinamente na área do web design e programação e por isso tive a sorte de entrar a receber, mas não sem antes estar três semanas a trabalhar para a MDG a partir de casa, de graça.

E o que acontece ao estagiário que não tem esta sorte? Esse estagiário ficará pelo menos três meses a trabalhar sem ter direito a qualquer remuneração.

Posso dizer que chegou a existir uma altura em que, para 10 pessoas remuneradas (nem sempre licitamente), havia 30 a 40 estagiários não-remunerados. As condições de trabalho também não eram as melhores, principalmente na altura de maior afluência de estagiários, onde acontecia uma pessoa chegar para trabalhar e não ter onde se sentar ou onde colocar o portátil (não havia computadores ou material informático de trabalho da empresa, tinha de ser trazido pelo trabalhador). Isto levou a alguns incidentes e discussões de colegas pela posse de um lugar fixo ou mesas de trabalho definidas. 

A MDG é detentora de um enorme número de submarcas e as pessoas responsáveis trabalhavam todas no mesmo sítio, sob um ambiente em que mal se podia falar ou trocar ideias. Um ambiente pesado em que não podia haver risos ou trocas espontâneas de ideias (estamos a falar de uma empresa que trabalha na área da criatividade). Queres ouvir musica? Ouves nos teus phones! Tudo bem. Mas pior e mais sombrio que isso, se querias trocar uma ideia ou sugestão sobre um projecto da empresa com um colega, que por sinal estaria ao teu lado ou na tua mesa, tinhas de enviar por Skype! Devo dizer que foi o estágio na MDG que me levou a utilizar o Skype e eu gostei tanto da experiência que tive com o software nesta empresa que desde que saí nunca mais o abri. 

O horário oficialmente estabelecido para a MDG era das 10:00 às 13:00, almoço e depois das 14:00 às 19:00, mas a chefia queria que todos estivessem no local de trabalho às 9:30 e a hora de saída não era definida. 

Diziam (a chefia) que ali se trabalha por objectivos, muito bem, mas quando os objectivos do dia eram cumpridos ninguém estava dispensado de sair mais cedo, ou seja, acontecia que se tivesses cumprido os objectivos, começavas os do dia seguinte, mas se por ventura não tivesses terminado os teus objectivos para o dia, tinhas de fazer horas extra, não importava quantas e não importava o quê, pois no dia seguinte, por muitas horas que tivesses trabalhado no dia anterior, se não estivesses no local às 9:30, eras chamado à atenção e/ou repreendido.

A pressão era exercida 24 horas por dia. Para que se consiga enquadrar a situação da MDG, o principal sócio, Amândio Pereira, vivia nos U.S.A., o que fazia com que este não tivesse uma noção real do trabalho desenvolvido e empregue na MDG, no Porto. Para este senhor a arma de eleição era, mais uma vez, o Skype ou o email interno da empresa (cada colaborador tinha uma conta) onde fazia comunicados com linguagem imprópria e ultimatos, ameaçando de despedimento com uma regularidade alarmante (só eu tive quatro ameaças de despedimento em cinco meses), por motivos quase surreais, como por exemplo usar-se um lápis de grafite para se esboçarem layouts em vez de uma caneta de cor preta (exigência da empresa), mesmo quando esses layout eram para referência do colaborador/trabalhador e nunca para apresentar daquela forma a superiores ou clientes externos.

A “chefia” presente no Palácio das Artes, Porto, seguem à risca as ordens de Amândio Pereira e, pelo que vivi, das duas uma, ou são pessoas com um imenso vazio moral ou não têm capacidade de se impor, mesmo quando sabem que algo está a ser feito da forma errada. “Foi o Amândio que disse para fazer assim” era uma frase regular, fosse qual fosse o plano profissional. Marketing, gestão, design de produto, design gráfico, web design, programação, não interessa, se o Amândio (formado em design de produto) dizia, tinha de se fazer assim. Os chefes eram, portanto, meros fantoches, replicadores das exigências do verdadeiro chefe.

Todos os trabalhadores das áreas criativas da MDG eram obrigados a fazer “Mercados”, palavra que designava a tarefa de espalhar mensagem sobre os produtos da empresa nas redes sociais, através de perfis falsos (por exemplo Amanda Martin, Catherine Leccia, Claire Foward, Clare Phyta, Nathalie Gustaff, Emily Taylor ou Isabella Macheatoutti). Eram estabelecidos mínimos para os contactos desenvolvidos, pelo números de respostas positivas obtidas e pelo número de vendas. Tudo isto para além das funções estabelecidas em contracto (se existisse).

Eu fui contratado para um estágio de nove meses, mas saí ao quinto, precisamente no seguimento da utilização do lápis em esboços meus. Existiram colegas (estagiárias de programas Erasmus) que foram dispensadas sem aviso prévio, com o argumento de que não produziam como e quanto devia. Pois claro que não! Se ninguém lhes dizia o que deviam fazer!

Conheci alguns estagiários que para terminar a sua licenciatura lhes era requerido que fizessem um estágio de três meses num qualquer gabinete ou empresa da área de Design e até esses eram maltratados. 

Vi gente a chorar no local de trabalho por não aguentar mais a pressão exercida do outro lado do atlântico e gente a perder o controlo. Muitas discussões sobre coisas motivadas por uma simples coisa: lucro. Era a palavra de ordem na MDG: lucro, fazer dinheiro! Numa empresa em que 75 por cento dos trabalhadores das áreas criativas de design de produto, design gráfico, web design e marketing não eram pagos.

E é isto, espero que façam bom uso da minha história, porque a MDG é mesmo mais um dos sítios em Portugal onde entramos iludidos e saímos revoltados e explorados.»


Daniel